Composição e Produção por Lavoisier
Lavoisier: Patrícia Relvas – Voz e Percussão;
Roberto Afonso – Guitarra elétrica, clássica, campaniça e Voz
Pedro Branco – Guitarra elétrica e Organelle
Ricardo Dias Gomes – Baixo e Synth
Diogo Arranja – Bateria, nos temas: Portugal não me respeita; Quiçá o mar; Era uma menina; Melúria
Helena Liberato – Flauta transversal, nos temas: Banquete ácido; Pé de Vento
Mário João Santos – Adufe, no tema: O Mundo Bem Monstro
Leonardo Reis – Percussão, nos temas: Pé de Vento; Portugal não me respeita; Mais uma Canção de Amor e Luta
Gravações no Estúdio Bela Flor, por Eduardo Vinhas
Mistura e Master de Martín Scian
Design de Gonçalo Fialho
Dois mil e vinte cinco assinala o regresso dos Lavoisier ao trabalho de edições fonográficas, com o novo longa duração intitulado era com h. A seguir ao seu álbum-estudo Polifonias Singulares vol.1, de 2023, onde puderam colaborar com as Cantadeiras do Campo do Gerês, os músicos Patricia Relvas e Roberto Afonso fizeram-se rodear desta vez pela voz literária de dez poetas contemporâneos, de origem e latitudes geográficas diferentes. Indo ao encontro de um contexto atual que espelhe a experiência e visão consagrada de uns, com a vontade intransigente e distópica de um novo olhar atento de outros, dez poemas inéditos foram musicados, tendo por eixo a busca da musicalidade no gesto da poesia contemporânea portuguesa.
Pela atenção dada à palavra escrita em português, os Lavoisier convidam para este novo trabalho os poetas: Alice Neto de Sousa, Filipe Homem Fonseca, José Anjos, José Luís Peixoto, Maria Giulia Pinheiro, Maria do Rosário Pedreira, Nástio Mosquito, Nuno Miguel Guedes, Raquel Nobre Guerra e Vinicius Terra, todos eles escolhidos não apenas por uma afinidade pessoal e artística, mas sobretudo pelo seu alto grau de atividade e compromisso com a dinamização da poesia contemporânea.
O nome deste trabalho era com h surge em plena manifestação onírica que se move num raciocínio lógico que não é traduzível na escrita e, por isso, vive no imaterial, no que não se toca e por conseguinte não se lê. era com h é um sonho que se quer concretizar num sítio presente, onde a era já não é, criando uma infinitude de possibilidades, onde novos dias acontecem a par de estrelas que implodem, libertando energia suficiente para alimentar um novo imaginário colectivo em que todos somos convidados a habitar, a viver e a fazê-lo de seu.
era com h acontece na gravidade das palavras escolhidas, quando estas centram um espaço que acolhemos como nosso, num sentido perene de existência, louvando o ato de permanecer entre quem nos rodeia, e no que nos move.
era com h tem o apoio da DGArtes / Ministério da Cultura da República Portuguesa.
LAVOISIER
era com h
A musicalidade e o gesto
na poesia contemporânea
Do horizonte à música,
efémero caminho ou fonte,
como um breve sumário,
ou um longo sumário,
inédito caminho ou ponte
da música ao horizonte.
Métrica metáfora da vida,
discreto destino do olhar,
fonte, nascer e morrer, só
com o propósito de ligar
o horizonte à música.
Depois, deixar a morte,
efémero inédito caminho,
e atravessar a ponte, só
com o propósito de ligar
a música ao horizonte.
Fui aos mercados da cidade.
Todos.
Comprei cebolas.
Todas.
Descasquei a saudade
daqueles seus atos.
Deixei escorrer a falta
em lágrimas falsas.
Provocadas.
Cozinhei para nós
um banquete,
ácido,
de fim.
Confesso,
meu apetite
mesmo
era o avesso
dos nossos corpos
no começo.
Sozinha,
comi ao contrário,
tirei de mim os seus temperos,
toques, carnes, exagero, ovário,
passeio cáustico ao limite
da calçada
do passado
do mercado
do início
de nós.
Vou desperta / mas caio na rede
eu só vejo / gente feliz
embarcada / no seu segredo
vendo a alma / só por um triz
o que sinto / calo bem dentro
eu só sonho / em existir
(mas) dividido / o mundo bem monstro
estende a pele / para eu vestir:
toma esta armadilha / esconde bem a tua ferida
se na história faz silêncio / és turista da tua vida
estou desperta / mas caio na rede
eu só vejo / gente infeliz
empurrando / em língua estranha
o seu medo / que contradiz
já me canso / de ser divina
dispo o manto / da fantasia
eu só quero / ser a menina
eu só quero / ser a menina
que se engana no caminho / que da história faz silêncio
eu só quero ser a menina… que.
Nem chegamos ao verão
Tanta flor, tanta estação
Tanto vento, sem recado
Tanto que teria dado
Nem chegamos ao verão
Sopra tanto, tanto tanto
Tanto frio, agasalho
Tantos dias em retalho
Agasalha forte a febre
Veste a sede de quem bebe
Bebe a sede de quem pede
Pé de valsa, pé de salsa
Pé de vento, pé de asa
Tanta flor, na minha mão
Banho frio, chuva quente
Sol que volta, sol que desce
Lua chove, lua mente
Nem chegamos ao verão
Tanto quase, só que não
Corta o teto, arrefece
Adormece no mar alto
Tanto tempo, contratempo
Tanto chego, chego a tempo
Pé de asa, pé de casa
Pé de salsa, pé de vento
Pé de brasa, pé de chão
Calça rasa, passo lento
Tanto frio, tanto tempo
Tanta flor na minha mão,
Tanta tinta no cabelo
Seca o mar de tanto vê-lo
Nem chegamos ao verão.
Sou eu o idoso
Aquele que não se compara com ninguém
Porém
Perdido e ofendido contigo que sem saberes decides
minha vida sem migo
Cadê o país que me pariu
Alguém me diz que foi
Partiu
Da miséria memória, bom
Da prosperidade, convite com
Isolamento cheio de ruidoso som
O país que no nunca foi, partiu
Sem deixar nem pista nem aceno…
Entre feno e grito pequeno
Celebrarei “gargalhoso” lamento
Me ajuda
Pelo voto ou pela conta choruda
Só não me deixa perder viver na vida vivida
Vamos fazer ser
Não somente parecer, encarecer meu intristecer
Vamos?
Sem isto a mais e mais
Sem termos de receitas médicas nos proteger
Vamos?
É demais, o mais e mais…
Me ajuda
Pelo voto ou pela conta choruda
Só não me deixa perder viver na vida vivida
Portugal está de cócoras…
Suas pernas abertas… escancaradas…
E a Extrema pede que a penetre, penetre…
Me ajuda
Pelo voto ou pela conta choruda
Só não me deixa perder viver na vida vivida
Quem dera que eu seja o mais doce diospiro já trincado
Sabor de um suspiro
Água a teu lado
Quem dera que eu seja aquela sombra alegre e fres-
ca do sobreiro
Firme companheiro
Um abrigo desejado
Se a vida é um mistério
Se os dias são segredos
Desenhámos o mais belo mapa
Sem medos
Que inúteis podem ser estas palavras
Muito mais diz este vento
Sobre o fogo que em mim lavras
Não quero saber se é sorte ou condição
Vivo em casa nos teus braços
Sinto a força da tua mão
Quem dera que eu seja o mais doce diospiro já
trincado sabor de um suspiro água a teu lado/Todos
os caminhos são manhãs inteiras por desbravar
Quem dera que eu seja aquela sombra alegre
e fresca do sobreiro firme companheiro um abrigo
desejado/Todos os perigos são sombras rasteiras
para pisar
Se a vida é um mistério
Se os dias são segredos
Desenhámos o mais belo mapa
Sem medos
Passo a passo e luta em luta vamos desenhando
o mais belo mapa
Passo a passo e luta em luta vamos desenhando
o mais belo mar
Se a vida é um mistério
Se os dias são segredos
Desenhámos o mais belo mapa
Sem medos
O mais belo mapa
O mais belo mar…
Quem dera
Percorri o mar
Porque seria óbvio mergulhar
E será
Porque já não há calçada pra mim
E nem sequer estrelas
{para me abrigar}
Quiçá outro astro
Então assim…
Deixo outros planetas pros burocratas
As estradas para as concessionárias
Parlamentos, parlatórios, paralelepípedos
Para outros bípedes, anfíbios, antídotos para qualquer
veneno
Então assim…
Escorrem opiniões aos frascos para guela abaixo,
guela adentro
Há muita técnica, tanta cura, tanta gente nos ecrãs
de face
Eu só quero minhas guelras para assim viver mar
adentro
As ruas querem respirar
Mas sufocam com tanto a falar
Ofegante, eu errante estou a andar na contramão
O que não é tendência: é discussão
O que não é vivência: é reclusão
Não há samba, nem semba ou fado que acalme;
alento esse peito em guerra
Eu só quero minhas guelras para assim viver mar
adentro
Então assim…
Já não quero o ar para mim
Porque já estão cheios, do seu modo cruzeiro
10.000, 40.000 pés de metais sobre nossas cabeças
quem sabe um pirata
quem sabe um marujo
um luso iludido com o novo mundo alheio, secular
para os outros
Que sequer sabemos que os outros lá estavam
e não foram citados em nossas aulas de História
Há sempre a história do animal abatido
A parte da história não ouvida
Quem quer histórias de um herói sofrido?
Então assim…
Já não há lar para mim
Portanto, para tanto e com tanto
Quero tanto o mar como casa
E aqui cheguei, mas tudo está tão plástico
lamentável lixeira
cemitérios de sereia
por conseguinte para mim não há lugar
Quiçá o Mar?
Então assim…
minha casa sou eu
é que minha casa sou eu.
Era uma menina e morreu. Diziam
que a doença nova não chegava às
crianças, mas a morte tem de comer
todos os dias. Na escola, a quem
perguntava por ela, os mais velhos
respondiam apenas que estava doente.
Aos mais cansados de esperar, contaram
que tinha ido viver para outra terra. A
melhor amiga arrepiou-se ao ouvir a
palavra «terra»; e os outros viraram a
cabeça e viram a morte passar no pátio a
rir – e mais gorda. Deram então as mãos,
e quem olhou de longe a roda que fizeram,
viu nela uma boca a que caíra um dente.
Quando o pequeno caixão branco desceu a
avenida, os adultos, entretidos com os próprios
rostos, nem deram pelo silêncio. Só choraram
a morte da menina mais tarde, nas fotografias.
É pena que os peixes não saibam cantar
ninguém sai vivo das fotografias
(de um prédio bombardeado)
Quis ainda ser criança
ser um sonho que aprende
Fugir da terra pelo mundo
tão grande, tão lindo que ele é
Quis fugir para descobrir
que ainda pertenço aqui
Quis ser rica, dar a volta ao tempo
roubar as cartas à morte, fazer de forte
e fingir estar livre de tormentos
Ser um campo a correr para fora do quadro
inventar o espaço, só mais um espaço
ser pasto para quem souber olhar
Talvez o sol que não vejo
saiba que estou aqui
Fingir ou viver, não interessa
tudo vale para não chorar
quis cair ao contrário, levantar-me
da campa e fugir
quis fingir que estou viva
quem sabe até, ter conseguido sair
só posso agora lembrar, imaginar
as trovas que o dia não deixou passar
a roupa que a miséria não coseu
a este corpo que cresceu
meu perigo meu amigo
quem seremos nós
depois?
Lá fora caem bombas
caem trovas e trovões
Por dentro ficam roupas
sobre um corpo (dez, mil, milhões)
que não voltará a crescer
sobem gritos
e suspiros
o sol já devia ter nascido
estou-me quase a esquecer
meu perigo meu amigo
não quero ainda ir contigo
Talvez, quem saiba, não seja preciso
estar vivo para viver
meu perigo meu amigo
eu só queria envelhecer
Ouço passos lá fora
não sei se são de fugir
ou de salvar
ouço passos lá fora
serão os meus?
ou serás tu que me vem buscar?
Talvez, quem saiba, não seja preciso
estar vivo para morrer
meu perigo meu amigo
eu só queria envelhecer
I
PELE
Miragem.
Intruso
que do meu corpo transborda gemidos, melúrias.
Coro
de um só recém-
-chegado
prematuro:
nasci tarde para
cair ao chão, uma espera
dilatada,
fio de sangue nos
lábios e a pressa de tombar.
Matéria
orgânica,
a terra e o grito,
a pele e o mar
engelhados — febre de ti.
Tu e eu, nem sabemos acordar e
morrer juntos.
A promessa não nasce assim, de uma sombra vaga,
diluída.
Vem.
II
RASGO
Sou lei rasgada,
herege
e triste
e além
Vem do meu olhar
Ferida aberta,
fresca; e sal,
mel na ferida
aberta,
fé
incerta.
Vem tombar
aos meus pés.
Vem. Sem. Vem.
Vem sem medo, em segredo, desregrado, já ferido, pré-
-tombado, prometido e fechado.
Cinco manhãs sem um grito, sem tudo o que nos faz
acordar, sem sal,
sem mel na ferida.
Tu e eu nem
sabemos acordar.
Ferida;
cair na ferida
aberta.
Tu e eu
nem sabemos
morrer juntos.
III
QUEDA
Mel, sal, fel, mar, talvez tombar, talvez morrer e acordar,
viver sem ver o mar, provar o sal, beber o mel, sem
pisar terra, morrer sem ti, viver sem mais, cair sem
grito, viver sem pele, morrer assim, sem acordar, sem
sal nem mar nem mais, sem nós, tombar sem chão,
cair sem ti, sem mel nem terra, sem mar nem som-
bra,
morrer sem acordar, viver sem mim, provar o sangue,
morrer sem chão, tombar sem ti, viver assim, morrer
sem nós.
Vem tombar
aos meus pés.
Vou tombar
aos teus pés.
Vem tombar
aos meus pés.
Vou tombar
aos teus pés.
EPÍLOGO (VAGA SEM PRAIA)
Intruso, ferida que se cola à pele, grito aberto, escorre
sangue e mel e sangue, mar de gente vazia de estorvo
cardíaco, maré de uma só melúria recém-quebrada na
costa prematura de uma evolução tardia, um passo que
se sacode aos poucos e de uma vez, peso nos ombros,
o peso do mundo, cruz carregada, avesso da pena
cumprida, olhar cativo na mesa e na cama e no que
mora dentro do Norte e do outro lado do daqui a pouco,
memória que tomba, uma sombra e mais outra, canção
ferida, sem mar nem sal nem mel.
Composição e Produção por Lavoisier
Lavoisier: Patrícia Relvas – Voz e Percussão;
Roberto Afonso – Guitarra elétrica, clássica, campaniça e Voz
Pedro Branco – Guitarra elétrica e Organelle
Ricardo Dias Gomes – Baixo e Synth
Diogo Arranja – Bateria, nos temas: Portugal não me respeita; Quiçá o mar; Era uma menina; Melúria
Helena Liberato – Flauta transversal, nos temas: Banquete ácido; Pé de Vento
Mário João Santos – Adufe, no tema: O Mundo Bem Monstro
Leonardo Reis – Percussão, nos temas: Pé de Vento; Portugal não me respeita; Mais uma Canção de Amor e Luta
Gravações no Estúdio Bela Flor, por Eduardo Vinhas
Mistura e Master de Martín Scian
Design de Gonçalo Fialho
Dois mil e vinte cinco assinala o regresso dos Lavoisier ao trabalho de edições fonográficas, com o novo longa duração intitulado era com h. A seguir ao seu álbum-estudo Polifonias Singulares vol.1, de 2023, onde puderam colaborar com as Cantadeiras do Campo do Gerês, os músicos Patricia Relvas e Roberto Afonso fizeram-se rodear desta vez pela voz literária de dez poetas contemporâneos, de origem e latitudes geográficas diferentes. Indo ao encontro de um contexto atual que espelhe a experiência e visão consagrada de uns, com a vontade intransigente e distópica de um novo olhar atento de outros, dez poemas inéditos foram musicados, tendo por eixo a busca da musicalidade no gesto da poesia contemporânea portuguesa.
Pela atenção dada à palavra escrita em português, os Lavoisier convidam para este novo trabalho os poetas: Alice Neto de Sousa, Filipe Homem Fonseca, José Anjos, José Luís Peixoto, Maria Giulia Pinheiro, Maria do Rosário Pedreira, Nástio Mosquito, Nuno Miguel Guedes, Raquel Nobre Guerra e Vinicius Terra, todos eles escolhidos não apenas por uma afinidade pessoal e artística, mas sobretudo pelo seu alto grau de atividade e compromisso com a dinamização da poesia contemporânea.
O nome deste trabalho era com h surge em plena manifestação onírica que se move num raciocínio lógico que não é traduzível na escrita e, por isso, vive no imaterial, no que não se toca e por conseguinte não se lê. era com h é um sonho que se quer concretizar num sítio presente, onde a era já não é, criando uma infinitude de possibilidades, onde novos dias acontecem a par de estrelas que implodem, libertando energia suficiente para alimentar um novo imaginário colectivo em que todos somos convidados a habitar, a viver e a fazê-lo de seu.
era com h acontece na gravidade das palavras escolhidas, quando estas centram um espaço que acolhemos como nosso, num sentido perene de existência, louvando o ato de permanecer entre quem nos rodeia, e no que nos move.
era com h tem o apoio da DGArtes / Ministério da Cultura da República Portuguesa.
LAVOISIER
era com h
A musicalidade e o gesto
na poesia contemporânea
Do horizonte à música,
efémero caminho ou fonte,
como um breve sumário,
ou um longo sumário,
inédito caminho ou ponte
da música ao horizonte.
Métrica metáfora da vida,
discreto destino do olhar,
fonte, nascer e morrer, só
com o propósito de ligar
o horizonte à música.
Depois, deixar a morte,
efémero inédito caminho,
e atravessar a ponte, só
com o propósito de ligar
a música ao horizonte.
Fui aos mercados da cidade.
Todos.
Comprei cebolas.
Todas.
Descasquei a saudade
daqueles seus atos.
Deixei escorrer a falta
em lágrimas falsas.
Provocadas.
Cozinhei para nós
um banquete,
ácido,
de fim.
Confesso,
meu apetite
mesmo
era o avesso
dos nossos corpos
no começo.
Sozinha,
comi ao contrário,
tirei de mim os seus temperos,
toques, carnes, exagero, ovário,
passeio cáustico ao limite
da calçada
do passado
do mercado
do início
de nós.
Vou desperta / mas caio na rede
eu só vejo / gente feliz
embarcada / no seu segredo
vendo a alma / só por um triz
o que sinto / calo bem dentro
eu só sonho / em existir
(mas) dividido / o mundo bem monstro
estende a pele / para eu vestir:
toma esta armadilha / esconde bem a tua ferida
se na história faz silêncio / és turista da tua vida
estou desperta / mas caio na rede
eu só vejo / gente infeliz
empurrando / em língua estranha
o seu medo / que contradiz
já me canso / de ser divina
dispo o manto / da fantasia
eu só quero / ser a menina
eu só quero / ser a menina
que se engana no caminho / que da história faz silêncio
eu só quero ser a menina… que.
Nem chegamos ao verão
Tanta flor, tanta estação
Tanto vento, sem recado
Tanto que teria dado
Nem chegamos ao verão
Sopra tanto, tanto tanto
Tanto frio, agasalho
Tantos dias em retalho
Agasalha forte a febre
Veste a sede de quem bebe
Bebe a sede de quem pede
Pé de valsa, pé de salsa
Pé de vento, pé de asa
Tanta flor, na minha mão
Banho frio, chuva quente
Sol que volta, sol que desce
Lua chove, lua mente
Nem chegamos ao verão
Tanto quase, só que não
Corta o teto, arrefece
Adormece no mar alto
Tanto tempo, contratempo
Tanto chego, chego a tempo
Pé de asa, pé de casa
Pé de salsa, pé de vento
Pé de brasa, pé de chão
Calça rasa, passo lento
Tanto frio, tanto tempo
Tanta flor na minha mão,
Tanta tinta no cabelo
Seca o mar de tanto vê-lo
Nem chegamos ao verão.
Sou eu o idoso
Aquele que não se compara com ninguém
Porém
Perdido e ofendido contigo que sem saberes decides
minha vida sem migo
Cadê o país que me pariu
Alguém me diz que foi
Partiu
Da miséria memória, bom
Da prosperidade, convite com
Isolamento cheio de ruidoso som
O país que no nunca foi, partiu
Sem deixar nem pista nem aceno…
Entre feno e grito pequeno
Celebrarei “gargalhoso” lamento
Me ajuda
Pelo voto ou pela conta choruda
Só não me deixa perder viver na vida vivida
Vamos fazer ser
Não somente parecer, encarecer meu intristecer
Vamos?
Sem isto a mais e mais
Sem termos de receitas médicas nos proteger
Vamos?
É demais, o mais e mais…
Me ajuda
Pelo voto ou pela conta choruda
Só não me deixa perder viver na vida vivida
Portugal está de cócoras…
Suas pernas abertas… escancaradas…
E a Extrema pede que a penetre, penetre…
Me ajuda
Pelo voto ou pela conta choruda
Só não me deixa perder viver na vida vivida
Quem dera que eu seja o mais doce diospiro já trincado
Sabor de um suspiro
Água a teu lado
Quem dera que eu seja aquela sombra alegre e fres-
ca do sobreiro
Firme companheiro
Um abrigo desejado
Se a vida é um mistério
Se os dias são segredos
Desenhámos o mais belo mapa
Sem medos
Que inúteis podem ser estas palavras
Muito mais diz este vento
Sobre o fogo que em mim lavras
Não quero saber se é sorte ou condição
Vivo em casa nos teus braços
Sinto a força da tua mão
Quem dera que eu seja o mais doce diospiro já
trincado sabor de um suspiro água a teu lado/Todos
os caminhos são manhãs inteiras por desbravar
Quem dera que eu seja aquela sombra alegre
e fresca do sobreiro firme companheiro um abrigo
desejado/Todos os perigos são sombras rasteiras
para pisar
Se a vida é um mistério
Se os dias são segredos
Desenhámos o mais belo mapa
Sem medos
Passo a passo e luta em luta vamos desenhando
o mais belo mapa
Passo a passo e luta em luta vamos desenhando
o mais belo mar
Se a vida é um mistério
Se os dias são segredos
Desenhámos o mais belo mapa
Sem medos
O mais belo mapa
O mais belo mar…
Quem dera
Percorri o mar
Porque seria óbvio mergulhar
E será
Porque já não há calçada pra mim
E nem sequer estrelas
{para me abrigar}
Quiçá outro astro
Então assim…
Deixo outros planetas pros burocratas
As estradas para as concessionárias
Parlamentos, parlatórios, paralelepípedos
Para outros bípedes, anfíbios, antídotos para qualquer
veneno
Então assim…
Escorrem opiniões aos frascos para guela abaixo,
guela adentro
Há muita técnica, tanta cura, tanta gente nos ecrãs
de face
Eu só quero minhas guelras para assim viver mar
adentro
As ruas querem respirar
Mas sufocam com tanto a falar
Ofegante, eu errante estou a andar na contramão
O que não é tendência: é discussão
O que não é vivência: é reclusão
Não há samba, nem semba ou fado que acalme;
alento esse peito em guerra
Eu só quero minhas guelras para assim viver mar
adentro
Então assim…
Já não quero o ar para mim
Porque já estão cheios, do seu modo cruzeiro
10.000, 40.000 pés de metais sobre nossas cabeças
quem sabe um pirata
quem sabe um marujo
um luso iludido com o novo mundo alheio, secular
para os outros
Que sequer sabemos que os outros lá estavam
e não foram citados em nossas aulas de História
Há sempre a história do animal abatido
A parte da história não ouvida
Quem quer histórias de um herói sofrido?
Então assim…
Já não há lar para mim
Portanto, para tanto e com tanto
Quero tanto o mar como casa
E aqui cheguei, mas tudo está tão plástico
lamentável lixeira
cemitérios de sereia
por conseguinte para mim não há lugar
Quiçá o Mar?
Então assim…
minha casa sou eu
é que minha casa sou eu.
Era uma menina e morreu. Diziam
que a doença nova não chegava às
crianças, mas a morte tem de comer
todos os dias. Na escola, a quem
perguntava por ela, os mais velhos
respondiam apenas que estava doente.
Aos mais cansados de esperar, contaram
que tinha ido viver para outra terra. A
melhor amiga arrepiou-se ao ouvir a
palavra «terra»; e os outros viraram a
cabeça e viram a morte passar no pátio a
rir – e mais gorda. Deram então as mãos,
e quem olhou de longe a roda que fizeram,
viu nela uma boca a que caíra um dente.
Quando o pequeno caixão branco desceu a
avenida, os adultos, entretidos com os próprios
rostos, nem deram pelo silêncio. Só choraram
a morte da menina mais tarde, nas fotografias.
É pena que os peixes não saibam cantar
ninguém sai vivo das fotografias
(de um prédio bombardeado)
Quis ainda ser criança
ser um sonho que aprende
Fugir da terra pelo mundo
tão grande, tão lindo que ele é
Quis fugir para descobrir
que ainda pertenço aqui
Quis ser rica, dar a volta ao tempo
roubar as cartas à morte, fazer de forte
e fingir estar livre de tormentos
Ser um campo a correr para fora do quadro
inventar o espaço, só mais um espaço
ser pasto para quem souber olhar
Talvez o sol que não vejo
saiba que estou aqui
Fingir ou viver, não interessa
tudo vale para não chorar
quis cair ao contrário, levantar-me
da campa e fugir
quis fingir que estou viva
quem sabe até, ter conseguido sair
só posso agora lembrar, imaginar
as trovas que o dia não deixou passar
a roupa que a miséria não coseu
a este corpo que cresceu
meu perigo meu amigo
quem seremos nós
depois?
Lá fora caem bombas
caem trovas e trovões
Por dentro ficam roupas
sobre um corpo (dez, mil, milhões)
que não voltará a crescer
sobem gritos
e suspiros
o sol já devia ter nascido
estou-me quase a esquecer
meu perigo meu amigo
não quero ainda ir contigo
Talvez, quem saiba, não seja preciso
estar vivo para viver
meu perigo meu amigo
eu só queria envelhecer
Ouço passos lá fora
não sei se são de fugir
ou de salvar
ouço passos lá fora
serão os meus?
ou serás tu que me vem buscar?
Talvez, quem saiba, não seja preciso
estar vivo para morrer
meu perigo meu amigo
eu só queria envelhecer
I
PELE
Miragem.
Intruso
que do meu corpo transborda gemidos, melúrias.
Coro
de um só recém-
-chegado
prematuro:
nasci tarde para
cair ao chão, uma espera
dilatada,
fio de sangue nos
lábios e a pressa de tombar.
Matéria
orgânica,
a terra e o grito,
a pele e o mar
engelhados — febre de ti.
Tu e eu, nem sabemos acordar e
morrer juntos.
A promessa não nasce assim, de uma sombra vaga,
diluída.
Vem.
II
RASGO
Sou lei rasgada,
herege
e triste
e além
Vem do meu olhar
Ferida aberta,
fresca; e sal,
mel na ferida
aberta,
fé
incerta.
Vem tombar
aos meus pés.
Vem. Sem. Vem.
Vem sem medo, em segredo, desregrado, já ferido, pré-
-tombado, prometido e fechado.
Cinco manhãs sem um grito, sem tudo o que nos faz
acordar, sem sal,
sem mel na ferida.
Tu e eu nem
sabemos acordar.
Ferida;
cair na ferida
aberta.
Tu e eu
nem sabemos
morrer juntos.
III
QUEDA
Mel, sal, fel, mar, talvez tombar, talvez morrer e acordar,
viver sem ver o mar, provar o sal, beber o mel, sem
pisar terra, morrer sem ti, viver sem mais, cair sem
grito, viver sem pele, morrer assim, sem acordar, sem
sal nem mar nem mais, sem nós, tombar sem chão,
cair sem ti, sem mel nem terra, sem mar nem som-
bra,
morrer sem acordar, viver sem mim, provar o sangue,
morrer sem chão, tombar sem ti, viver assim, morrer
sem nós.
Vem tombar
aos meus pés.
Vou tombar
aos teus pés.
Vem tombar
aos meus pés.
Vou tombar
aos teus pés.
EPÍLOGO (VAGA SEM PRAIA)
Intruso, ferida que se cola à pele, grito aberto, escorre
sangue e mel e sangue, mar de gente vazia de estorvo
cardíaco, maré de uma só melúria recém-quebrada na
costa prematura de uma evolução tardia, um passo que
se sacode aos poucos e de uma vez, peso nos ombros,
o peso do mundo, cruz carregada, avesso da pena
cumprida, olhar cativo na mesa e na cama e no que
mora dentro do Norte e do outro lado do daqui a pouco,
memória que tomba, uma sombra e mais outra, canção
ferida, sem mar nem sal nem mel.
